Em São Paulo, Jair Bolsonaro mostra 'receio' de ser deposto ou preso
08/09/2021 08:03 em Brasil

 

Do ConJur

Horas depois de atacar o Supremo Tribunal Federal e anunciar uma reunião não convocada do Conselho da República, o presidente Jair Bolsonaro, não escondeu seu medo de ser deposto ou preso. Ele subiu o tom em discurso em São Paulo e direcionou suas investidas aos ministros do STF Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso e ao sistema eleitoral. 


Tanto o ritual em Brasília como o de São Paulo desta terça-feira (7/9) mostraram com clareza o planejamento simplório e a orquestração centralizada. Ineditamente, não houve qualquer menção ao PT, a Lula, nem mesmo à Covid. Outro item que sumiu do cardápio foi a menção ao artigo 142 da Constituição e a insinuação de que os militares participam da conspiração.

A ideia uniformizada concentrou-se no objetivo de alavancar um movimento para emparedar o Supremo e o Congresso. Não só internamente. As faixas e cartazes em inglês visaram um eventual apoio externo, como repetiu o presidente ao referir-se, repetidamente, “ao Brasil e ao mundo”.

Em cima de um carro de som na Avenida Paulista, o presidente mandou avisar “aos canalhas que querem me tornar inelegível em Brasília: só Deus me tira de lá”. Depois, repetiu fala recente ao prever três futuros possíveis para si próprio: prisão, morte ou vitória.

“[Quero] dizer aos canalhas que nunca serei preso. A minha vida pertence a Deus. Mas a vitória é de todos nós”, disse. Foram suas últimas palavras. Ele agradeceu ao público e se retirou.

Antes, para chegar ao ápice, atacou os mesmos inimigos de sempre. Iniciou o discurso com críticas a prefeitos e governadores, pelas restrições durante a epidemia de Covid-19, que, para ele, foram "piores do que o vírus”.

Na sequência, focou no ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, um alvo preferencial. Afinal, é o relator dos inquéritos que investigam atos antidemocráticos e campanhas de desinformação na internet e será o presidente do Tribunal Superior Eleitoral nas eleições de 2022.

Jair Bolsonaro anunciou que não cumprirá decisões proferidas por Alexandre de Moraes. “Ou esse ministro se enquadra ou ele pede para sair. Não se pode admitir que uma pessoa apenas, um homem apenas, turve a nossa liberdade. Dizer a esse ministro que ele tem tempo, ainda, para se redimir. Tem tempo, ainda, de arquivar seus inquéritos”, disparou.

O presidente, que se definiu como um democrata que age “dentro das quatro linhas da Constituição”, também voltou a atacar o sistema eleitoral, uma batalha perdida em agosto, quando o Congresso derrubou a proposta de emenda à Constituição que previa a adoção do voto impresso junto da urna eletrônica.

“Não é uma pessoa do Tribunal Superior Eleitoral que vai nos dizer que esse processo é seguro e confiável”, afirmou, em referência ao presidente da Corte, ministro Luís Roberto Barroso.

“Não podemos admitir um ministro do TSE também usando a sua caneta para desmonetizar paginas que criticam este sistema de votação”, apontou, em referência ao ministro Luís Felipe Salomão, corregedor-geral da Justiça Eleitoral. Em agosto, Salomão determinou a suspensão do repasse de valores de monetização de redes sociais a canais e perfis dedicados à propagação de desinformação sobre o sistema eleitoral brasileiro. Isso por constatar que os investigados vêm obtendo vantagens financeiras por meio de reiterados ataques infundados.

E por fim Bolsonaro avisou: “Não posso participar de uma farsa como essa patrocinada ainda pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral”.

Se não tem a intenção de concorrer em eleições com voto eletrônico — pesquisas demonstram que a popularidade do presidente está em queda e que ele perderia a disputa à reeleição em 2022 —, Bolsonaro voltou a ameaçar propósitos golpistas ao encerrar o discurso prometendo que só Deus o tira de Brasília. 

"Hoje prestamos contas a vocês, e não a partidos políticos", disse o presidente, que atualmente não está filiado a nenhuma legenda. "Tenho cada vez mais a certeza do nosso futuro. O apoio de vocês é primordial. É indispensável para seguirmos adiante", disse à multidão na Avenida Paulista.

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