COVID-19: Estudo de 15 anos já mostrava riscos de trombocitopenia no uso de adenovirus como vetor viral
24/04/2021 15:57 em Mundo

Redação RN
Por: Ida Irene Bergstrøm and Marianne Nordahl , ScienceNordic

Já há algumas semanas, pacientes vacinados com a Covishield, a fórmula contra a Covid-19 desenvolvida pela AstraZeneca em parceria com a Universidade de Oxford, no Reino Unido, têm apresentado um efeito colateral preocupante: a redução dos níveis de plaquetas e a formação de coágulos sanguíneos após receberem o imunizante. Algo semelhante aconteceu nos Estados Unidos, onde a vacina da Janssen também está sob suspeita.
Isso levou alguns países europeus a interromperem o uso da fórmula. A Noruega parou de aplicá-la na primeira quinzena de março. Em estudos publicados no The New England Journal of Medicine, pesquisadores noruegueses e alemães nomearam a síndrome de trombocitopenia imune induzida por vacina (VITT).


E agora ficou claro que essa ocorrência não era totalmente desconhecida. Pelo menos para os cientistas que estudaram o uso de adenovírus como vetor viral em animais 15 ou 20 anos atrás. “Essa síndrome era bem conhecida por quem usava vetores adenovirais na época”, diz a bióloga norueguesa Gro Amdam.
Quando a condição foi apresentada como misteriosa, Gro se perguntou se todo o conhecimento sobre o assunto foi esquecido. No Canadá, Maha Othman, professora da Queen’s University, tem a mesma dúvida. Ela é especialista em condições sanguíneas, como sangramentos e coágulos.

Pesquisa da década de 1990
O uso de adenovírus para terapia genética era uma aposta inovadora nos anos 1990. Até que Jessie Gelsinger, um voluntário de 18 anos, morreu em 1999 durante um ensaio clínico que testava a tecnologia. A pesquisa foi paralisada e, nos 10 anos seguintes, cientistas buscaram entender a resposta imune ao microrganismo.
Nesse período, a professora Maha estudou o efeito da técnica nas plaquetas — componentes do sangue que formam coágulos e estancam sangramentos. Isso porque, embora o adenovírus cause doenças respiratórias, quando usado como vetor viral, tem todas as suas capacidades retiradas. Nessa condição, ele é chamado de vírus deficiente de replicação e não deveria ser capaz de causar doenças. “Mesmo assim, ele pode estimular a resposta imune inata, o que pode afetar as plaquetas e a coagulação”, destaca Maha.
Maha aplicou vírus deficientes de replicação em ratos. Em 24h, os níveis de plaquetas dos animais baixaram porque o adenovírus ativou suas plaquetas e isso levou à coagulação. A professora descobriu que o agente entrou nas plaquetas com a ajuda do receptor de coxsackievírus e adenovírus (CAR) e que o processo estava também relacionado à liberação da proteína UHMW-VWF, importante para a coagulação.

Estudos já eram conhecidos
Tor Kristian Andersen, imunologista do Oslo University Hospital, lembra que é difícil comparar as duas experiências. “Todos os estudos sugerem que a vacinação em massa é segura e esse efeito colateral é extremamente raro.” Segundo ele, não há razões para duvidar que foi uma boa ideia usar adenovírus como vetor viral nessas vacinas contra a Covid-19.
Embora a Agência de Medicamentos Norueguesa soubesse dos resultados dos estudos com animais, eles não fizeram parte da avaliação das vacinas de vetor viral contra a Covid-19, segundo Svein Rune Andersen, diretor científico para vacinas da Agência de Medicamentos Norueguesa. “Todos os dados dos imunizantes foram examinados. Não havia razão para suspeitar que as vacinas causariam um efeito indesejado.”
A AstraZeneca avalia que mais estudos são necessários para entender a relação entre a Covishield e as ocorrências de coagulação. Embora o desenvolvimento da vacina tenha sido mais veloz que o normal, foram aplicados os mais altos padrões de segurança e ética. “Os dados dos estudos clínicos conduzidos globalmente em mais de 60 mil participantes com a Covishield não apresentaram motivo para preocupação”, diz Mathias Holm Pedersen, diretor de comunicação para os países nórdicos da AstraZeneca. A Janssen preferiu não se manifestar sobre o tema.
Para a professora Maha, não se pode tirar conclusões precipitadas. Em vez disso, é preciso acompanhar o desenvolvimento da situação, obter dados e conduzir estudos mais abrangentes

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